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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Emissário de um Rei Desconhecido

Fernando Pessoa e os heterônimos por Costa Pinheiro

A cantora portuguesa Eugénia Melo e Castro (voz) e Toninho Horta (violões) interpretam Emissário de um Rei Desconhecido, poema de Fernando Pessoa que Milton Nascimento musicou para o projeto A Música em Pessoa, LP lançado em 1985 com poemas do autor português transformados em canções por Tom Jobim, Edu Lobo, Sueli Costa, Dori Caymmi, Arrigo Barnabé, dentre outros, além do Bituca.

Emissário de um Rei Desconhecido
(Passos da Cruz XIII)
Poema de Fernando Pessoa musicado por Milton Nascimento

Emissário de um Rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou.
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas ah, Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...

Áudio Eugénia Melo e Castro e Toninho Horta (também aqui)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Segue o Teu Destino

Fernando Pessoa por Almada Negreiros (1954)

A compositora e cantora Sueli Costa musicou o poema Segue o Teu Destino, de Ricardo Reis, mais um dos heterônimos de Fernando Pessoa, cujo cinquentenário de morte foi celebrado no projeto do álbum A Música em Pessoa, em 1985. Nessa faixa participam Nana caymmi (voz), Dori Caymmi (violão e arranjo), Gilson Peranzzetta (piano), Luís Alves (contrabaixo) e uma orquestra de cordas.

Segue o Teu Destino
Sueli Costa sobre poema de Ricardo Reis

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Áudio Nana Caymmi e demais músicos

Na Ribeira Deste Rio

 

Na Ribeira Deste Rio, poema de Fernando Pessoa, foi musicado por Dori Caymmi para o disco A Música em Pessoa, de 1985 (ver postagem anterior ou aqui). A gravação, interpretada (voz e violão), arranjada e regida pelo próprio Dori, conta com a participação de Gilson Peranzzetta (piano Yamaha) e Luís Alves (contrabaixo).

Na Ribeira Deste Rio
Poema de Fernando Pessoa musicado por Dori Caymmi

Na ribeira deste rio
Ou na riveira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele
Me dá calor ou dá frio.

Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
Numa sequência arrastada,
do que ficou para trás.

Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.

Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi,
Ele passa e eu confio.

Áudio Dori Caymmi e demais músicos (também aqui)

domingo, 17 de julho de 2011

O Rio da Minha Aldeia


O português Fernando Pessoa realizou uma das produções literárias mais fascinantes na minha opinião ao se fragmentar em vários eus, seus heterônimos e semi-heterônimos. Em 1985 Elisa Byington e Olivia Hime produziram o LP intitulado A Música em Pessoa, com poemas do escritor português musicados e interpretados por vários compositores, músicos, cantores e atores, dentre eles Tom Jobim, que musicou o ótimo poema O Tejo É Mais Belo, do heterônimo Alberto Caeiro, de cuja poesia também gosto muito. A seguir apresento a letra do poema e o áudio com a gravação do próprio Tom (piano e voz), que lhe modificou o título para O Rio da Minha Aldeia. O arranjo é de Paulo Jobim e há a participação de uma orquestra de cordas (violinos, violas e cellos). Outras faixas do disco serão postadas durante esta semana.


O Rio da Minha Aldeia
Poema de Alberto Caeiro, musicado por Tom Jobim

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grande navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Áudio Tom Jobim