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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Viena Fica na 28 de Setembro


Elis Regina: 30 anos depois...

Sem dúvida uma das melhores duplas reveladas por Elis foi João Bosco e Aldir Blanc. No mesmo ano da morte da cantora, os compositores fizeram uma homenagem a ela e a outros nomes da música brasileira na inspirada Viena Fica na 28 de Setembro, lançada no disco de João intitulado Comissão de Frente, de 1982, com a participação, além do músico mineiro (voz, violão e arranjo), do ex-marido e arranjador dos discos de Elis nos anos 1970, Cesar Camargo Mariano (Prophet V, piano Fender Rhodes, Arp Strings e arranjo).


Vale lembrar que 28 de Setembro se refere ao boulevard de mesmo nome localizado em Vila Isabel, morada no Rio de Janeiro de ilustres compositores como Noel Rosa, Orestes Barbosa, João de Barro, Almirante e, mais recentemente, Martinho da Vila, além do próprio Aldir Blanc. As calçadas do Boulevard 28 de Setembro são decoradas com pedras portuguesas representando partituras de músicas brasileiras. Coube a Almirante nos anos 1960 fazer a seleção das músicas: Cidade Maravilhosa (André Filho) - esta primeira ainda na Praça Maracanã -, O Abre Alas (Chiquinha Gonzaga), Pelo Telefone (Donga e Mauro de Almeida), Mal-Me-Quer (Cristóvão de Alencar, Armando Reis e Newton Teixeira), Feitiço da Vila (Noel Rosa e Vadico), Ave Maria (Ertildes Campos e Jonas Neves), Aquarela do Brasil (Ary Barroso), Jura (Sinhô), Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro), Linda Flor (Henrique Vogeler e Luís Peixoto), A Conquista do Ar (Eduardo das Neves), Luar do Sertão (Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco), Chão de Estrelas (Orestes Barbosa e Sílvio Caldas), Linda Morena (Lamartine Babo), A Voz do Violão (Francisco Alves e Horácio Campos), Na Pavuna (Homero Dornellas e Almirante), Primavera do Rio (João de Barro e Ernesto Nazareth), Apanhei-te Cavaquinho (Ernesto Nazareth), Florisbela (Nássara e Frazão) e Renascer das Cinzas (Martinho da Vila) - esta última já na Praça Barão de Drummond.

Viena Fica na 28 de Setembro
João Bosco e Aldir Blanc

Morre a luz da noite
O porre acende pra me iluminar
    numa outra cena...
Zune o vento e valsam os oitis
    no velho boulevard:
    bosques de Viena!
Escrevo carta a uma desconhecida
Com quem tive um flerte, um anjo azul...
Pobres balconistas de paquete, de ar infeliz
    são novas Bovarys...
Já perdi o expresso do oriente
    onde sempre sou
    vítima e assassino...
Tomo a carruagem e o cocheiro
    de tabela dois
    diz que é vascaíno...
Ah, triste figura, Don Quixote
    quer mais um traçado
    – cadê o Sancho?
Dá pro santo, bebe, e o passado
    volta a desfilar,
    pierrô de marcha-rancho:

...com as broncas do Ary Barroso, sem elas...
...com a bossa do Ciro Monteiro, sem ela...
...com o copo cheio de Vinícius, sem ele...
...com nervos de aço Lupicínio, sem eles...
...com as mãos do Antonio Maria, sem elas...
...com a voz do Lamartine Babo, sem ela...
...com a rosa Dolores Duran, sem ela...
...com a majestade da Elis, sem ela...

Áudio João Bosco e Cesar Camargo Mariano

O Rancho da Goiabada


Elis Regina: 30 anos depois

Nesta postagem apresento um vídeo em que Elis interpreta O Rancho da Goiabada, de João Bosco e Aldir Blanc, número do show Tranversal do Tempo, no Teatro Brigadeiro em São Paulo, em um programa da TV Bandeirantes exibido em 1978. Participam: Cesar Camargo Mariano (teclados), Crispim Del Cistia (teclados), Dudu Portes (percussão e bateria), Natan Marques (violão?) e Sizão Machado (baixo elétrico).

O Rancho da Goiabada
João Bosco e Aldir Blanc

Os bóias-frias quando tomam
Umas biritas, espantando a tristeza
Sonham com um bife a cavalo, batata-frita
E a sobremesa
É goiabada cascão, com muito queijo
Depois café, cigarro e um beijo de uma mulata
Chamada Leonor ou Dagmar

Amar, o rádio de pilha, um fogão Jacaré
A marmita, o domingo, um bar
Onde tantos iguais se reúnem
Contando mentiras pra poder suportar
Ai, são pais-de-santo, paus-de-arara, são passistas
São flagelados, são pingentes, balconistas
Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados
Dançando, dormindo de olhos abertos
À sombra da alegoria dos faraós embalsamados

Vídeo Elis Regina e demais músicos

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Tempos do Onça e da Fera (Quarador)


Tempos do Onça e da Fera (Quarador)
João Bosco e Aldir Blanc

Saindo pro trabalho de manhã
O avô vestia o sol do quarador
Tecido em goiabeiras, sabiás,
Cigarras, vira-latas e um amor.
E o amor ia ao portão pra dar adeus
De pano na cabeça, espanador...
Os netos... o quintal... Vila Isabel...
Todo o Brasil era sol, quarador.

Hoje, acordei depois do meio-dia,
Chovia, passei mal no elevador,
Ouvi na rua as garras do metrô.
O avô morreu.
Mudou Vila Isabel ou mudei eu?
Brasil...
Tá em falta o honesto sol do quarador.

Áudio João Bosco

domingo, 20 de novembro de 2011

Kid Cavaquinho


Kid Cavaquinho
João Bosco e Aldir Blanc

Oi que foi só pegar no cavaquinho
Pra nego bater
Mas seu contar o que é que pode um cavaquinho
Os home não vão crer:

Quando ele fere, fere firme
E dói que nem punhal
Quando ele invoca até parece
Um pega na geral

Genésio!
A mulher do vizinho
Sustenta aquele vagabundo

Veneno é com meu cavaquinho
Pois se eu to com ele
Encaro todo mundo
Se alguém pisa no meu calo
Puxo o cavaquinho
Pra cantar de galo

Áudio João Bosco

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Coração Pirata


Coração Pirata
Nando e Aldir Blanc

Quando a paixão não dá certo
Não há porque me culpar
Eu não me permito chorar
Já não vai adiantar
E recomeço do zero (nada) sem reclamar

O meu coração pirata toma tudo pela frente
Mas a alma adivinha
O preço que cobram da gente
E fica sozinha

Levo a vida como eu quero
Estou sempre com a razão
Eu jamais me desespero
Sou dono do meu coração
Ah! O espelho me disse
Você não mudou

Sou amante do sucesso
Nele eu mando, nunca peço
Eu compro o que a infância sonhou
Se errar, eu não confesso
Eu sei bem quem eu sou
E nunca me dou!

As pessoas se convencem
De que a sorte me ajudou
Plantei cada semente
Que o meu coração desejou
Ah! O espelho me disse
Você não mudou

Faço porque quero
Estou sempre com a razão
Eu jamais me desespero
Sou dono do meu coração
Ah! O espelho me disse
Você não mudou!

Você não mudou!
Não mudou...


Áudio Roupa Nova

sábado, 24 de setembro de 2011

O Coco do Coco


O Coco do Coco
Guinga e Aldir Blanc

Moça donzela não arrenega um bom coco,
Nem a mãe dela, nem as tia, nem a madrinha.
Num coco tô com quem faz muito e acha pouco,
em rala-rala é que se educa a molhadinha.

Se tu não peca, meu bem,
Cai a peteca, neném,
Vira polícia da xereca da vizinha.
Se tu se guarda e não tem
Tá encruada que nem
Ovo no cu da galinha.

Não tem cinismo quem diz
Entre a santa e a meretriz,
Só muda a forma com que as duas se arreganha.
Eu só me queixo se criar teia de aranha,
Quem nega, ou tá de manha
Ou faz pouco que gozou.
No tempo em que eu casei de véu com meu marido
Eu era virgem do ouvido e ele nunca reclamou,
Pra ser sincera eu acho que isso inté facilitou.

Moça...

Vídeo Leila Pinheiro, Guinga e músicos da Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro - OSRJ

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Bijuterias


Bar-ba-ri-da-de! Já estamos quase em setembro!

Bijuterias
João Bosco e Aldir Blanc

Em setembro
Se Vênus me ajudar
Virá alguém
Eu sou de virgem
E só de imaginar
Me dá vertigem.


Minha pedra é ametista
Minha cor, o amarelo
Mas sou sincero
Necessito ir urgente
Ao dentista
Tenho alma de artista
E tremores nas mãos
Ao meu bem mostrarei
No coração,
Um sopro e uma ilusão
Eu sei
Na idade em que estou
Aparecem tiques, as manias
Transparentes

Transparentes
Feito bijuterias
Pelas vitrines


Da Sloper da alma

Áudio João Bosco

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Gol Anulado


Gol Anulado
João Bosco e Aldir Blanc

Quando você gritou: “Mengo!”
No segundo gol do Zico
Tirei sem pensar o cinto
E bati até cansar

Três anos vivendo juntos
E eu sempre disse contente
Minha preta é uma rainha
Porque não teme o batente
Se garante na cozinha
E ainda é Vasco doente

Daquele gol até hoje meu rádio está desligado
Como se radiasse o silêncio do amor terminado
Eu aprendi que a alegria
De quem está apaixonado
É como a falsa euforia
De um gol anulado

Vídeo Elis Regina

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Falso Brilhante


Falso Brilhante
João Bosco e Aldir Blanc

O amor
É um falso brilhante
No dedo da debutante
O amor
É um disparate.
Na mala do mascate
Macacos tocam tambor.
O amor
É um mascarado:
A patada da fera
Na cara do domador.
O amor
Sempre foi o causador
Da queda da trapezista
Pelo motociclista
Do globo da morte.
O amor é de morte.
Faz a odalisca atear fogo às vestes
E o dominó beber águarras.
O amor é demais.
Me fez pintar os cabelos,
Me fez dobrar os joelhos,
Me faz tirar coelhos
Da cartola surrada da esperança.
O amor é uma criança.
E mesmo diante da hora fatal
O amor
Me dará forças
Pro grito de carnaval,
Pro canto do cisne,
Pra gargalhada final.

Vídeo João Bosco

Pequeno Circo Íntimo


Pequeno Circo Íntimo
Ivan Lins, Aldir Blanc e Paulo Emilio

Fiz essa canção
Pelo tesão que o anão
Sentia na mulher barbada.
Pelo domador
Que violou a Menina das aves
Na jaula dos animais.
Pelo espectador
E o Tatuado
Que morreram de mãos dadas
Num pacto entre anormais.

Fiz essa canção
Pela solidão
E a tristeza do palhaço.
Eis minha canção
Pela equilibrista
Que, lá em cima,
Perde o passo...
Para a bilheteira
Que bebe estricnina
Pela moça dos balões.
Todo o meu amor
Para o homem-bala
Atirado nos leões
Fiz essa canção
Pra contorcionista
Que padece da coluna
Pro engolidor de fogo
Cheio de bronquite
Que, no escuro, ainda fuma...
Pro ilusionista
Que se enforcou na estola
E viu na cartola o mar...
Pro atirador
Que voltou a faca
Contra a própria jugular
Bordei essa canção
Com o paetê
Que há no lixo aonde as glórias
Renascem: memórias

Áudio Ivan Lins e Aldir Blanc (também aqui)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Tiro de Misericórdia

 Ilustrações de Mello Menezes

Outro retrato pungente da infância na música popular é sem dúvida uma das obras-primas da dupla João Bosco e Aldir Blanc: Tiro de Misericórdia, lançada em álbum homônimo de João no ano de 1977. A capa e contracapa desse disco - surpreendentemente ainda inédito em CD - estão reproduzidas acima.

Tiro de Misericórdia
João Bosco e Aldir Blanc

O menino cresceu entra a ronda e a cana
Correndo nos beco que nem ratazana.
Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
Subindo em pedreira que nem lagartixa.
Borel, juramento, urubu, catacumba,
Nas roda de samba, no eró da macumba.
Matriz, querosene, salgueiro, turano,
Mangueira, são carlo, menino mandando,
Ídolo de poeira, marafo e farelo,
Um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
Imperador dos morro, reizinho nagô,
O corpo fechado por babalaôs.

Baixou oxolufã com as espadas de prata,
Com sua coroa de escuro e de vício.
Baixou caô-xangô com o machado de asa,
Com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
Com todos seus ferros, com lança e enxada.
E oxossi com seu arco e flecha e seus galos
E suas abelhas na beira da mata.
E oxum trouxe pedra e água da cachoeira
Em seu coração de espinhos dourados.
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
E um batalhão de mil afogados
Iansã trouxe as almas e os vendavais,
Adagas e ventos, trovões e punhais.
Oxum-maré largou suas cobras no chão.
Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
Lançando a doença pra seus inimigos.
E nanã-buruquê trouxe a chuva e a vassoura
Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.

Exus na capa da noite soltaram a gargalhada
E avisaram a cilada pros orixás.
Exus, orixás, menino, lutaram como puderam
Mas era muita matraca pra pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do pendura-saia,
Zambi menino lumumba tomba na raia
Mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
Arcanjos velhos, coveiros do carnaval.

– Irmãos , irmãs, irmãozinhos,
   por que me abandonaram?
   por que nos abandonamos
   em cada cruz?
– Irmãos , irmãs, irmãozinhos,
   nem tudo está consumado.
   a minha morte é só uma:
   ganga, lumumba, lorca, jesus...

Grampearam o menino do corpo fechado
E barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
E a misericórdia no último tiro.
Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
Depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
Num jogo cercado pelos sete lados.

Áudio e vídeo João Bosco



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Títulos de Nobreza (Ademilde no Choro)


Em Títulos de Nobreza (Ademilde no Choro), uma homenagem dos compositores João Bosco e Aldir Blanc a esse gênero que também estou homenageando este mês aqui no blog, Aldir perfila na letra os títulos - de nobreza! - de várias composições do repertório do choro. É também uma homenagem à cantora Ademilde Fonseca, a Rainha do Choro, que foi a primeira intérprete a se destacar, em 1942, cantando as composições de um gênero até então quase que exclusivamente  instrumental. Diga-se de passagem que a performance vocal da cantora é impressionanente devido a velocidade com que consegue cantar as letras das composições (ver post seguinte). A gravação postada aqui é a do João Bosco (violão), muito bem acompanhado por Cristóvão Bastos (piano e arranjo), Gilberto D'Ávila (pandeiro), Luciana Rabello (cavaquinho) e Raphael Rabello (violão 7 cordas).

Títulos de Nobreza (Ademilde no Choro)
João Bosco e Aldir Blanc

Tira a poeira das reminiscências
Simplicidade e lamento, jamais
Pérolas, língua de preto, cadência
Mágoas, cristal, pedacinho do céu
Murmurando, ingênuo, migalhas de amor
Saxofone, me diz, por que choras
Ai carinhoso e brejeiro, o chorinho Odeon
Nas noites cariocas

Naquele tempo, chorei, vou vivendo
Nosso romance ainda me recordo
Flor amorosa, apanhei-te, assanhado
Numa seresta de sapato novo
Eu vascaíno, um a zero
Entre mil vibrações, Ademilde no choro

Áudio João Bosco

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mentiras de Verdade



Mentiras de Verdade
João Bosco e Aldir Blanc

Assoviei, fingi à beça
Fiz promessa e o amor não some
Criei um muro e a mesma fome
Morde os braços do adeus
Com a boca eu me despedi
Minhas mãos desdisseram: não, não
Mentira, foi tudo mentira
Você me enganou

Verdade, foi tudo verdade
Eu hoje admito:
Somos um mito, sim
Maldade e carinho
Ternura sem fim
Num laço
Coleira de cetim
Quero esquecer de mim
Ser mais você, menos do que eu...
Verdade e mentira que o amor entre nós reviveu
- E um breque é coisa nossa num samba-canção porque...

Ouça João Bosco aqui.

domingo, 20 de março de 2011

O Bêbado e a Equilibrista

Charge de Henfil (clique na imagem para ampliar)

Uma das minhas composições favoritas do grande encontro Elis Regina, César Camargo Mariano, João Bosco e Aldir Blanc!

O Bêbado e a Equilibrista
João Bosco e Aldir Blanc

Caía
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil
Meu Brasil
Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa pátria-mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil
Mas sei
Que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança dança
Na corda bamba de sombrinha
Em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Áudio Elis Regina (destaque para a introdução e o final imitando um realejo)



Vídeos Elis Regina







segunda-feira, 14 de março de 2011

As Minas do Mar



As Minas do Mar
João Bosco e Aldir Blanc

Sou caçador de tesouros
Nas minas do mar.
Mouro, tive ambição, mas
Aprendi que safiras, cristais,
Cordas podres,
Pro mar são iguais.

Mar,
Os malditos tumbeiros,
As proas de impérios,
Dilataram teu seio, é,
E ergueram teu pênis
De sombra e mistério:
És o homem e a mulher.

Tanto azul
E as espadas do sol,
Tanto arpão
Mas o pólen do adeus
Fecundará na saudade a sedução.

Sou peregrino
No amante de todos os rios,
Nos atóis e corais, é,
No crepúsculo piso
Em recifes e escamas
Com as águas em chamas.

Noite,
O escafandro penetra
No útero-mar
E a lua no cio é
Uma loba que o leite
Ao gozar cai no mar
E expande a maré...

Essa cor, de esmeralda-manhã,
Vai virar mil turquesas do Irã
- Se venta assim, ouço a voz do muezim...

Áudio João Bosco

E Então, Que Quereis?... - Corsário



E Então, Que Quereis?... 
Vladimir Maiakovski

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
 

Corsário
João Bosco e Aldir Blanc

Meu coração tropical está coberto de neve
Mas
Ferve em seu cofre gelado
A voz vibra e a mão escreve:
“Mar”
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves
Que mancham o silêncio e o cais

Roseirais, Nova Granada de Espanha
Por você, eu, teu corsário preso

Vou partir
A geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar
Procurar o mar

Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Como as garrafas de náufrago
E as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha
E as rosas partindo o ar

Vídeos João Bosco






Vídeo Elis Regina

domingo, 6 de março de 2011

Jeitinho Brasileiro



Jeitinho Brasileiro
João Bosco e Aldir Blanc

Pra gostar bom é o jeitinho brasileiro
Assim entre o sofrido e o catimbeiro
Feito Ary numa aquarela
Mentira há de ser sinceramente,
Topada também toca pra frente
Gostar, mas de qual delas?
Viver
Viver com a pulga atrás da orelha
Quanto mais coçar,
Sorrir.
Sambar, ô, ô, ô, ô,
Sambar com um prego no sapato
Pra peteca não cair.
Viver e reviver.
Ver na saudade uma vizinha, Ioiô no quintal!
Folga pro meu lado, mas canto a marchinha
De um antigo carnaval.
Vizinhas, Ioiô morena, irmã da loura Iaiá...
O meu irmão noivou de Iaiá, feliz.
Mas viu na morena calor de pão, sumo de limão,
Frescor de buritis
E água de riacho rente aos pés,
Um zonzo de zumbido das abelhas, mel dos méis...
Se Iaiá saía, Ioiô vizinha se despia, a flor do quintal!
Meu irmão penava, mas cantarolava, pra manter sua moral:
Lourinha, lourinha, dos olhos claros de cristal,
Quanto tempo, ao invés da moreninha, serás a rainha do meu carnaval.
Lourinha, Morena, rainhas do meu carnaval,
Qualquer dia, Iaiá e Ioiô vizinhas
Vão reinar juntinhas lá no meu quintal.
Braguinha, Braguinha, Braguinha, não me leve a mal
Eu não esqueço a loura e a moreninha,
Pago tua parte em direito autoral.

Áudio João Bosco



Vídeo Simone & João Bosco

sexta-feira, 4 de março de 2011

Fantasia



Fantasia
João Bosco e Aldir Blanc

Olhando na quarta-feira as ruas vazias
Com os garis dando um jeito em nossa moral
Custei a compreender que fantasia
É um troço que o cara tira no carnaval
E usa nos outros dias por toda a vida
Dizendo: "Olá! Como vai?" e coisas assim
O nó da gravata apertando o pescoço
Olhando o fundo do poço e rindo de mim

Ria, rasguei a fantasia, ria
Queimei a garantia, ria
Tô solto por aí
Doido, eu danço de Pierrot, triste
Morrendo em meu amor, ria
Vendo você morrer de rir

Áudio Simone

Denúncia Vazia



Denúncia Vazia
João Bosco e Aldir Blanc

Esquecer você
Mas o correio traz as cartas
Uma é sua
Guardo sem abrir

O telefone me assusta
Deve ser você...
Não
Outro engano feito o nosso

Me visto e saio
O porteiro tem recado
É teu?
Não
Aumentou o condomínio

É melhor beber
Um carro freia
Alguém buzina
Eu nem olho

Voltam a insistir
Meu deus, a marca
O mesmo ano
Tem de ser você
Não
Outro engano feito o nosso

No bar, um par abraçadinho
Mas não pode ser
É!
Quem mandou não ler a carta?

Áudio João Bosco

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Querelas do Brasil



Querelas do Brasil
Maurício Tapajós / Aldir Blanc

O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil
Tapir Jabuti
Iliana alamanda alialaúde
Piau ururau akiataúde
Piá-carioca porecramecã
Jobimakarore é jobim-açu
Uô-uô-uô
Pererê camará tororó olerê
Piriri ratatá karatê olará
O Brazil não merece o Brasil
O Brazil tá matando o Brasil
Jerebasaci
Caandrades cunhãs ariranharanha
Sertões Guimarães Bachianas águas
Imarionaíma ariraribóia
Na aura das mãos de jobim-açu
Uô-uô-uô
Jereeré sarará cururu olerê
Blá-blá-blá bafafá sururu olará
Do Brasil, S.O.S. ao Brasil
“Tinhorão” urutu sucuri
Ujobim sabiá bem-te-vi
Cabuçu Cordovil Cachambi olerê
Madureira Olaria Ibangu olará
Cascadura Água Santa Acari olerê
Ipanema Inoveiguaçu olará
Do Brasil, S.O.S. ao Brasil

Vídeos com Elis Regina: 1978 (segue entrevista) e 1980