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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Coração Cigano


Coração Cigano
Edu Lobo e Paulo César Pinheiro

Coração é catavento
Carrossel sem direção
A girar de modo lento
Pelo vento da ilusão
Nesse eterno movimento
De saudade, de tristeza e de paixão

Coração roda-de-engenho
Feito o meu movido a mágoa
Quanto mais mágoas eu tenho
Gira mais a roda-d'água
É a vida esse desenho
Que só para quando para o coração

Coração rodamoinho
Sorvedouro, um turbilhão
Vai girando no caminho
O seu breve carrilhão
Nesse eterno burburinho
De procura, de amor, de solidão

Coração aventureiro
Vai seguindo a caravana
Navegante de cargueiro
Que tem bússola cigana
E é a vida o seu roteiro
Que só para quando para o coração

Áudio Edu Lobo

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Violão


Violão
Sueli Costa e Paulo César Pinheiro

Um dia eu vi numa estrada
Um arvoredo caído,
Não era um tronco qualquer.
Era madeira de pinho
E um artesão esculpia
O corpo de uma mulher.

Depois eu vi
Pela noite
O artesão nos caminhos
Colhendo raios de lua.
Fazia cordas de prata
Que, se esticadas, vibravam
O corpo da mulher nua.

E o artesão, finalmente,
Nesta mulher de madeira
Botou o seu coração
E lhe apertou contra o peito
E deu-lhe um nome bonito
E assim nasceu o violão.

Áudio Fatima Guedes (também aqui)



Vídeo "troublecleft" (solo de violão)

Violão Vadio


Violão Vadio
Baden Powell e Paulo César Pinheiro

Novamente juntos eu e o violão
Vagando devagar, por vagar
Cantando uma canção qualquer,
Só por cantar
Mercê da solidão
Vadiando em vão por aí
Nós vamos seguir,
Outra rua, outro bar,
Outro amigo, outra mão
Qualquer companheira, qualquer direção
Até chegar em qualquer lugar
Qualquer que seja a morte a esperar
Jamais meu violão me abandonará
Se eu vivi, foi inútil viver
Já mais nada me resta saber
Quero ouvir meu violão gemer
Até me serenizar

Áudio Elizeth Cardoso

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Velho Piano


Velho Piano
Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Ah! O amor muda tanto
Parece que o encanto
O cotidiano desfaz
Feito um verso jogado num canto
De um velho piano
Que não toca mais

E ele estende seu manto
Feito um soberano
E vem como um santo
Mas parte profano
Parece um cigano
Não volta jamais

Ah! O amor causa espanto
O amor é o engano que traz
Desengano por trás
E no entanto
Todo ser humano
Por ele faz plano demais
Erra demais

Ai, é o amor, barco tonto
Num vasto oceano
De riso e de pranto
De gozo e de dano
E como é mundano
Não pára no cais
E quando quer paz
É tarde demais

Áudio Nana Caymmi e Cesar Camargo Mariano

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sete-Violas


Poema de Paulo César Pinheiro musicado por Theo de Barros (site aqui), Sete-Violas está no disco Theo (2006), do compositor, instrumentista, cantor e arranjador carioca Theo de Barros e conta com a participação de vários intérpretes, nesta ordem de entrada (que é diferente do poema apresentado abaixo): Renato Braz (Viola de primitivo); Mônica Salmaso (Viola de caipira); Ana Luiza de Barros (Viola de marinheiro); Ricardo Barros e Theo de Barros (Viola de capoeira); Cidinha Souza, Ringo Alves, Carlinhos Souza e Tatiana Parra (Viola de sertanejo); novamente Renato Braz (Viola de nordestino); Cidinha Souza, Ringo Alves, Carlinhos Souza e Tatiana Parra (Viola de fitas). E na gravação também estão os seguintes instrumentistas: Theo de Barros (violão), Heraldo do Monte (viola caipira), Léa Freire (flauta), Teco Cardoso (flautas), Nailor Azevedo "Proveta" (clarinete), Mário Rocha (trompa), Arismar do Espirito Santo (baixo), Tibô Delor (baixo acústico), Toninho Ferragutti (acordeon), Caíto Marcondes (percussão) e cordas da OSESP.

Sete-Violas
Poema de Paulo César Pinheiro musicado por Theo de Barros

Viola de sertanejo,
Quando ela entra em torneio,
Parece que o seu manejo
Nas outras causa receio.
Se a corda parte no meio
Ela não perde o molejo,
O vento faz o ponteio
E a brisa faz o harpejo.
E ela acompanha o motejo
Fazendo mais um floreio,
Usando o som do trastejo
Pro dengue do balanceio.

Viola de caipira
Quando entra num desafio,
A corda vira e revira
Que nem um curso de rio.
Parece um bicho no cio
Em cada som que ela tira,
Que quem não tem sangue frio
Desse cordel se retira.
Baixa o seu Sete-da-Lira
No violeiro vadio,
Que quando acaba a catira
É o dono do mulherio.

Viola cheia de fitas,
Que tem as cordas de aço,
Amarra as moças bonitas
Com as fitas que tem no braço
Depois de presas no laço,
Marias, Rosas e Ritas,
Pra todas tem um pedaço,
Pois todas são favoritas.
São como as notas escritas,
Tem muitas em cada traço,
Mas todas ganham visitas
Dentro do mesmo compasso.

Viola de nordestino,
É dela o som mais ferido,
Parece um toque de sino
Prum retirante caído.
O bojo é pau retorcido
Cortado no sol a pino,
Por isso o som é um gemido
De pedra e pó, seco e fino.
Cravelha de osso bovino,
Bordão de couro curtido,
Quem toca faz seu destino
No chão da cobra-de-vidro.

Viola de marinheiro
Tem braço de viramundo,
E assim vira o mundo inteiro
Tirando o som lá do fundo.
Em roda de vagabundo
Ela é quem fala primeiro,
Ninguém quer ser o segundo,
Segundo o rei do terreiro,
Quem diz que não tem dinheiro
Que pague um canto profundo
De quem cantou, companheiro,
Nos quatro cantos do mundo.

Viola de primitivo,
Do mato se desenterra,
E tem o som instintivo
Que nem do boi quando berra,
Que nem do galo-da-serra,
Que nem de tudo que é vivo,
Só toca em campo de guerra
Se for pra não ser cativo.
E assim, por esse motivo,
Seu canto quando se encerra
Acorda o canto nativo
Do coração dessa Terra.

Viola de capoeira
Que roda em beira-de-praia,
Seu tampo é pau-de-aroeira,
Quem toca é da mesma laia.
Na roda que tem tocaia
Viola roda a bandeira,
Sai dando rabo-de-arraia,
Pernada, tapa e rasteira.
Não tomba em roda guerreira,
Não foge nunca da raia,
Só cai no chão da poeira
Se for em roda-de-saia.

Áudio Theo de Barros e vários intérpretes

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Viagem

 

Viagem
João de Aquino e Paulo César Pinheiro

Oh! triteza me desculpe,
Estou de malas prontas,
Hoje, a poesia veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar

Vamos indo de carona,
Na garupa leve, de um vento macio,
Que vem caminhando,
Desde muito longe,
Lá do fim do mar

Vamos visitar a estrela,
Da manhã raiada,
Que pensei perdida,
Pela madrugada,
Mas que vai escondida,
Querendo brincar

Senta nessa nuvem clara
Minha poesia, anda, se prepara
Traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha quantas aves brancas,
Minha poesia, dançam nossa valsa,
Pelo céu, que o dia,
Fez todo bordado de raios de sol

Oh! poesia, me ajude,
Vou colher avencas, lírios, rosas, dálias,
Pelos campos verdes, que você batiza,
De jardins do céu

Mas, pode ficar tranquila,
Minha poesia, pois nós voltaremos,
Numa estrela guia, num clarão de lua,
Quando serenar

Ou talvez, até quem sabe,
Nós só voltaremos, num cavalo baio,
No alazão da noite, cujo nome é raio,
Raio de luar

Áudio Marisa Gata Mansa

Encanteria


A história de Gloria Bomfim é superinteressante. Certo dia, cozinhando na casa de seus patrões, Gloria cantarolava uma música, quando a patroa a interrompeu: "Para de puxar o saco do patrão!" Aturdida, a cozinheira não entendeu nada, e a patroa, Luciana Rabello, explicou que a música que ela cantava chamava-se Viagem e era uma composição de seu patrão, Paulo César Pinheiro, com João de Aquino. Gloria, espantada, nem sequer imaginava que alguém pudesse inventar uma música, principalmente aquela que cantava desde criança, quando seus familiares a chamavam de "menina da Viagem". Anos depois, Paulinho quis lançar um disco todo autoral com canções de santos orixás. Aí teve a ideia de convidar a menina da Viagem para interpretá-las: aos 50 anos Gloria Bomfim lançaria seu disco de estreia, Santo e Orixá, em 2008. Eis as faixas do disco, todas composições de Paulo César Pinheiro: Santo e Orixá, Ogum Menino, Bambueiro, Encanteria, Anel de Aço, Cavalo de Santo, Gameleira Branca, O Mais Velho, Casca de Coco, A Palma da Palmeira, Senhor da Justiça, Sultão do Mato, Caboclo Guaracy, A Revolta dos Malês. Para esta postagem selecionei Encanteria. Leia mais detalhes sobre a história de Gloria Bomfim aqui. Também agradeço à Lisandra por mais essa dica!


Encanteria
Paulo César Pinheiro

Vou queimar a lamparina
Quando o rei me der sinal
Eu sou da casa de mina
Ele é da casa real

Eu desci da lua cheia
Pelo raio que alumia
Eu cheguei na sua aldeia
Pra fazer encanteria

Eu vim ver minha maninha
Dona do fundo do mar
Ela canta de noitinha
De manhã dorme a cantar

Moço, apague essa candeia
Deixa tudo aqui no breu
Quero nada que clareia
Quem clareia aqui sou eu

Vou queimar a lamparina...

Vim depressa como o vento
Mas não sei por que é que eu vim
Foi num canto de lamento
Que alguém chamou por mim

Acho que cheguei mais cedo
Antes de quem me chamou
Mas, se me chamou com medo
Vou-me embora, agora eu vou

De qualquer maneira eu deixo
Nessa casa, minha luz,
Abro ponto e ponto fecho
Deixo o resto com Jesus

Vou queimar a lamparina...

Áudio Gloria Bomfim (também aqui)

sábado, 14 de maio de 2011

Matita Perê


ilustração de Paulo Jobim no encarte do disco Matita Perê, de Tom Jobim (1973)

Matita Perê
Tom Jobim e Paulo César Pinheiro

No jardim das rosas
De sonho e medo
Pelos canteiros de espinhos e flores
Lá, quero ver você
Olerê, Olará, você me pegar

Madrugada fria de estranho sonho
Acordou João, cachorro latia
João abriu a porta
O sonho existia

Que João fugisse
Que João partisse
Que João sumisse do mundo
De nem Deus achar, Ierê

Manhã noiteira de força viagem
Leva em dianteira um dia de vantagem
Folha de palmeira apaga a passagem
O chão, na palma da mão, o chão, o chão

E manhã redonda de pedras altas
Cruzou fronteira de servidão
Olerê, quero ver
Olerê

E por maus caminhos de toda sorte
Buscando a vida, encontrando a morte
Pela meia rosa do quadrante Norte
João, João

Um tal de Chico chamado Antônio
Num cavalo baio que era um burro velho
Que na barra fria já cruzado o rio
Lá vinha Matias cujo o nome é Pedro
Aliás Horácio, vulgo Simão
Lá um chamado Tião
Chamado João

Recebendo aviso entortou caminho
De Nor-Nordeste pra Norte-Norte
Na meia vida de adiadas mortes
Um estranho chamado João

No clarão das águas
No deserto negro
A perder mais nada
Corajoso medo
Lá quero ver você

Por sete caminhos de setenta sortes
Setecentas vidas e sete mil mortes
Esse um, João, João
E deu dia claro
E deu noite escura
E deu meia-noite no coração
Olerê, quero ver
Olerê

Passa sete serras
Passa cana brava
No brejo das almas
Tudo terminava
No caminho velho onde a lama trava
Lá no todo-fim-é-bom
Se acabou João

No Jardim das rosas
De sonho e medo
No clarão das águas
No deserto negro
Lá, quero ver você
Lerê, lará
Você me pegar

Áudio Tom Jobim (também aqui)

Sagarana



Sagarana
João de Aquino e Paulo César Pinheiro

A ver, no em-sido
Pelos campos-claro: estórias
Se deu-passado esse caso
Vivência e memórias
Nos gerais
A honra é-que-é-que se apraz
Cada quão
Sabia sua distrição
Vai que foi sobre
Esse era-uma-vez, ’sas passagens,
Em beira-riacho
Morava o casal: personagens
Personagens
Personagens
A mulher
Tinha o morenês que se quer
Verdeolhar
Dos verdes do verde invejar
Dentro lá deles
Diz-que existia outro gerais
Quem o qual,
Dono seu,
Esse era erroso, no à-ponto-de ser feliz demais
Ao que a vida,
No bem e no mal dividida,
Um dia ela dá o que faltou... ô, ô, ô...
É buriti
Buritizais
É o batuque corrido dos gerais
O que aprendi
O que aprenderás
Que nas veredas por em-redor sagarana
Uma coisa é o alto bom-buriti
Outra coisa é buritirana...
A pois, que houve,
No tempo das luas bonitas,
Um moço eveio:
– Viola enfeitada de fitas.
Vinha atrás
De uns dias pra descanso e paz
Galardão:
– Mississol-redó: Falanfão.
No-que: “– se abanque...”
Que ele deu nos óio o verdejo
Foi se afogando
Pensou que foi mar, foi desejo
Foi desejo
Foi desejo
Era ardor
Doidava de verde o verdor
E o rapaz
Quis logo querer os gerais
E a dona deles:
“– Que sim”, que ela disse, verdeal
Quem o qual,
Dono seu,
Vendo as olhâncias, no-avoo virou bicho-animal:
– Cresceu nas facas:
– O moço ficou sem ser macho
E a moça sem verde ficou ... ô, ô, ô
É buriti...
Quem quiser que cante outra
Mas à-moda dos gerais
Buriti: rei das veredas
Guimarães: buritizais!
Guimarães: buritizais!
Guimarães: buritizais!

Vídeo Clara Nunes

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Homenagem à Velha Guarda

 Caricatura de Sivuca no site Forró em Vinil


Nesta postagem o instrumentista, arranjador, compositor, acordeonista, violonista,  guitarrista, pianista e percussionista, enfim músico paraibano Sivuca e sua Homenagem à Velha Guarda em dois grandes momentos. No primeiro, com letra de Paulo César Pinheiro, tocando acordeon e piano com Clara Nunes, Hélio Delmiro (violão), Dino 7 Cordas (violão 7 cordas), Netinho (clarinete), Copinha (flauta), Zé Menezes (bandolim) e Raul de Barros (trombone). Os demais músicos, o "pessoal de base" como são apresentados no encarte do disco As Forças da Natureza (1977), de Clara, aparecem citados em conjunto somente no final do texto de apresentação e não faixa a faixa como os demais, por isso me fica impossível saber quais músicos listados realmente participaram desta gravação. O arranjo é do próprio Sivuca. Já no segundo momento o multi-instrumentista, em seu acordeon, realiza fantástico duo com ninguém menos que outro grande multi-instrumentista, Hermeto Pascoal, este ao piano!

Homenagem à Velha Guarda
Sivuca e Paulo César Pinheiro

Um chorinho me traz
Muitas recordações
Quando o som dos regionais
Invadia os salões
E era sempre um clima de festas
Se fazia serestas
Parando nos portões
Quando havia os balcões
Sob a luz da Lua
E a chama dos lampiões a gás
Clareando os serões
Sempre com gentis casais
Como os anfitriões
E era uma gente tão honesta
Em casinhas modestas
Com seus caramanchões
Reunindo os chorões
Era uma flauta de prata
A chorar serenatas, modinhas, canções
Pandeiro, um cavaquinho e dois violões
Um bandolim bonito e um violão sete cordas
Fazendo desenhos nos bordões
Um clarinete suave
E um trombone no grave a arrastar corações
Piano era o do tempo do Odeon
De vez em quando um sax-tenor
E a abertura do fole imortal do acordeom
Mas já são pra nós
Meras evocações
Tudo já ficou pra trás
Passou nos carrilhões
Quase ninguém se manifesta
Pouca coisa hoje resta
Lembrando os tempos bons
Dessas reuniões

Áudio Clara Nunes



Vídeo Sivuca & Hermeto Pascoal

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Samba Bate Outra Vez


O Samba Bate Outra Vez
Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

Odete, Aracy, Dona Ivone
Sylvia Telles, Claudette, Simone
Clara, Beth, Elizeth, Alcione
Dolores Duran, Clementina
Carmen Costa, Miúcha e Cristina
Gal, Bethânia e Elis Regina
Nora Ney, Nana, Linda e Dircinha
Dóris, Elza, Marlene e Emilinha (O samba bate)

O samba bate outra vez
Bate outra vez
Não para
Bate no Estácio
Na mídia, no estúdio
No pódio, no estádio
Num gol do Mengão campeão
E nos programas de televisão
Jornal e rádio.
O samba bate outra vez
Bate outra vez
E invade
Bate no bar, na boite
Nos palcos de toda cidade
Que bom que já bate esse som,
Que é do Brasil, dentro do coração
Da mocidade.

O samba bate outra vez
O toque de reunir
O samba é que leva emoção
Ninguém pode impedir
O samba é que é a revolução
É preciso que se convençam
Por isso hoje o samba saiu
Saiu de novo pra quem não ouviu
E vem do compositor do Brasil
Com sua bênção.

Pixinga, Vinicius e Baden
Caymmi e Chico Buarque
Vanzolini e Mauro Duarte
Manacéa e Walter Alfaiate
Wilson Moreira e Nei Lopes
Bide, Brancura e Baiaco
Marçal, Ismael, Nilton Bastos
Casquinha, Candeia e Monarco (O samba bate)

O samba bate outra vez...

Mijinha, Anescar, Aniceto
Assis Valente, Ataulpho, Herivelto
Ary Barroso, Jobim, João Gilberto
Haroldo Lobo e Janet de Almeida
Wilson Batista e Geraldo Pereira
Mano Décio e Silas de Oliveira
Vadico, Sinhô, Noel Rosa
Luís Reis e Haroldo Barbosa

Donga e João da Bahiana
Monsueto e Luiz Soberano
Claudionor e Pedro Caetano
Cartola e Nelson Cavaquinho
Elton Medeiros, Zé Keti, Paulinho
Mirabeau, Zé-com-Fome, Valzinho
Lyra, Menescal e Bôscoli
Donato, Aldir, João Bosco

Miltinho, Aquiles, Rui, Magro
(A moçada do MPB-4)
Dick, Lúcio, Emílio Santiago
Vassourinha e Ciro Monteiro
Jamelão, Dilermando Pinheiro
Roberto Silva e Roberto Ribeiro
Mário Reis, Jorge Veiga, Moreira
Zimbo Trio, Jair, João Nogueira (O samba bate)

O samba bate outra vez...

Ouça aqui
(Vozes: Alza Helena Alves, Amélia Rabello, Beth Carvalho, Carlinhos Vergueiro, Chico Buarque, Cristina Buarque, Elton Medeiros, Ivone Lara, João Nogueira, Luciana Lopez, Luciana Rabello, Marcos Sacramento,  Maurício Carrilho, Maurício Tapajós, Miúcha, MPB-4, Paulo César Pinheiro, Paulo Malagutti, Paulo Roberto, Piii, Simone Cruz, Walter Alfaiate, Zé Ketti).

Pesadelo


Pesadelo
Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã

Olha aí...
Olha aí...
Olha aí...

Vídeo MPB-4

Tô Voltando


Tô Voltando
Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando

Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largar
Quero te abraçar, pode se perfumar
Porque eu tô voltando

Dá uma geral, faz um bom defumador
Enche a casa de flor
Que eu tô voltando
Pega uma praia, aproveita, tá calor
Vai pegando uma cor
Que eu tô voltando

Faz um cabelo bonito pra eu notar
Que eu só quero mesmo é despentear
Quero te agarrar
Pode se preparar porque eu tô voltando
Põe pra tocar na vitrola aquele som
Estreia uma camisola
Eu tô voltando

Dá folga pra empregada
Manda a criançada pra casa da avó
Que eu tô voltando
Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar
Telefone não deixa nem tocar
Quero lá, lá, lá, ia, porque eu tô voltando!


Áudio e vídeo com Simone



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Súplica - O Poder da Criação - Minha Missão (Triologia do Alumbramento)



A parceria entre João Nogueira e Paulo César Pinheiro rendeu muitos e ótimos frutos. Dentre eles destaco nesta postagem a Triologia do Alumbramento, composta das músicas Súplica, O Poder da Criação e Minha Missão.


Todas as três canções foram gravadas por João Nogueira na virada dos anos 70 e 80, respectivamente nos álbuns Clube do Samba (1979), Boca do Povo (1980) e O Homem dos Quarenta (1982).


Súplica
João Nogueira / Paulo César Pinheiro

O corpo a morte leva
A voz some na brisa
A dor sobe pras trevas
O nome a obra imortaliza
A morte benze o espírito
A brisa traz a música
Que na vida é sempre a luz mais forte
Ilumina a gente além da morte.

Venha a mim, óh, música
Vem no ar
Ouve de onde estás a minha súplica
Que eu bem sei talvez não seja a única
Venha a mim, oh, música
Vem secar do povo as lágrimas
Que todos já sofrem demais
E ajuda o mundo a viver em paz.

Vídeo João Nogueira





O Poder da Criação
João Nogueira / Paulo César Pinheiro

Não, ninguem faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação
Não, não precisa se estar nem feliz nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração

Não, ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
Que acende a mente e o coração
É, faz pensar que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Vem no meio da noite
Ou no claro do dia
Chega a nos angustiar

E o poeta se deixa levar por essa magia
E o verso vem vindo
E vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar...
Lalalaiá, laiá, lalaiá...

Áudio João Nogueira




Minha Missão
João Nogueira / Paulo César Pinheiro

Quando eu canto
É para aliviar meu pranto
E o pranto de quem já tanto sofreu.
Quando eu canto
Estou sentindo a luz de um santo
Estou ajoelhando aos pés de Deus.

Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite
Canto também contra a tirania

Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo
A esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz.

Do Poder da Criação
Sou continuação
E quero agradecer
Foi ouvida minha Súplica
Mensageiro sou da música.

O meu canto é uma Missão
Tem força de oração
E eu cumpro o meu dever
Aos que vivem a chorar
Eu vivo pra cantar
E canto pra viver

Quando eu canto a morte me percorre
E eu solto um canto da garganta
Que a cigarra quando canta morre
E a madeira quando morre, canta.

Vídeo João Nogueira




Áudio João Nogueira: Triologia do Alumbramento

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Desenredo



Desenredo
Dori Caymmi / Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo
A morte tece seu fio de vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tranças do teu desejo

O mundo todo marcado a ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo; a morte, o fim do novelo
O olhar que assusta anda morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço
A morte que a vida anda armando, a vida que a morte anda tendo
O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego eu me enrosco
Nas cordas do seu cabelo

Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou
Vou-me embora pra bem longe...

Áudio Edu Lobo & Dori Caymmi + Nana Caymmi




sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Senhorinha



Senhorinha
Guinga / Paulo César Pinheiro

Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma modinha

Sinhazinha
No balanço da cadeira de palhinha
Gosta de trançar seu retrós de linha
Como quem parece que adivinha (amor)

Será que ela quer casar
Será que eu vou casar com ela
Será que vai ser numa capela
De casa de andorinha

Princesinha
Moça dos contos de amor da carochinha
Gosta de brincar de fada-madrinha
Como quem quer ser minha rainha

Sinhá mocinha
Com seu brinco e seu colar de água-marinha
Gosta de me olhar da casa vizinha
Como quem me quer na camarinha (amor)

Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador

Ó prenda minha
Ó meu amor
Se torne a minha senhorinha

Áudio Guinga (o clarinete é Paulo Sergio Santos)

domingo, 13 de junho de 2010

Ofício


 Ainda sobre o efeito da "febre" chamada Paulo César Pinheiro, transcrevo a seguir a letra do seu poema "Ofício", declamado por ele no álbum Parceria - com João Nogueira (Velas, 1994):
 

Ofício
(Paulo César Pinheiro)

A música me ama 
Ela me deixa fazê-la 
A música é uma estrela 
Deitada na minha cama 

Ela me chega sem jeito 
Quase sem eu perceber 
Quando dou conta e vou ver 
Ela já entrou no meu peito 

No que ela entra a alma sai 
Fica o meu corpo sem vida 
Volta depois comovida 
E eu nunca soube onde vai 

Meu olho dana a brilhar 
Meu dedo corre o papel 
E a voz repete o cordel 
Que se derrama do olhar 

Fico algum tempo perdido 
Até me recuperar 
Quase sem acreditar 
Se tudo teve sentido 

A música parte e eu desperto 
Pro mundo cruel que aí está 
Com medo de ela não mais voltar 
Mas ela está sempre por perto 

Nada que existe é mais forte 
E eu quero aprender-lhe a medida 
De como compõe minha vida 
Que é para eu compor minha morte

terça-feira, 8 de junho de 2010

Parceria



No ótimo livro A letra brasileira de Paulo César Pinheiro: uma jornada musical, de Conceição Campos (Casa da Palavra, 2009, p. 149), há o excelente poema intitulado Parceria, de Paulo César Pinheiro, que transcrevo abaixo:




PARCERIA
Poema inédito de Paulo César Pinheiro

Parceria é um casamento, mas que dura...
Porque na parceria não há jura,
Não há promessa de fidelidade.
Se, em plena criação, alguém lhe atrai
Você diz ao parceiro, e você vai
E volta a ele quando dá saudade.

Porque ele também não se magoa
Pois sempre sai alguma coisa boa
Quando na música se prevarica;
Um samba, uma modinha, uma toada...
Depende muito de cada transada,
Mas se é bem dada é uma canção que fica.

Parceria é um casamento que não cansa
Porque não tem contrato e nem cobrança.
Ciúme tem... mas isso é passageiro.
Quem é traído muita vez reage
Propondo aos dois fazer uma ménage
No instrumento do próprio parceiro.

Mas, brincadeira à parte,
É uma amizade que se faz um dia
E que não se rompe por qualquer besteira.
É o desejo ardente da Poesia
Que vai pra cama com a Melodia
Deixando frutos pela vida inteira.

Mordaça



Nossa! Esta composição é sublime! Grande Paulinho!


MORDAÇA
(Eduardo Gudin / Paulo César Pinheiro)

Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva

O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva

E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar

Paulo César Pinheiro comenta sobre o verso 'O importante é que a nossa emoção sobreviva' no Programa Roda Viva, em 2004 e revela como era o 'termômetro' musical de Tom Jobim:

"Essa frase eu não sabia até que ponto esta frase teria sido lapidar como hoje sei, é isso aí, o meu lema, o meu timão é a emoção. Eu me lembro muito de no meu convívio com o Tom, por exemplo, que foi o maior compositor de todos os tempos do Brasil, às vezes ele me mostrando uma música em casa, o pêlo dele arrepiava, ele dizia assim: "Olha isso aqui, isso daqui é o termômetro" [mostra os pêlos do braço]. Ele dizia isso. O termômetro é esse, e eu não consigo mais levantar cabelo nenhum do corpo com o que estou ouvindo aí.[risos]"


A transcrição da entrevista do programa na íntegra pode ser acessada aqui.



Eduardo Gudin interpreta Mordaça ao violão: