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segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Samba Erudito
Samba Erudito
Paulo Vanzolini
Andei sobre as águas
Como São Pedro
Como Santos Dumont
Fui aos ares sem medo
Fui ao fundo do mar
Como o velho Picard
Só pra me exibir
Só pra te impressionar
Fiz uma poesia
Como Olavo Bilac
Soltei filipeta
Pra lhe dar um Cadillac
Mas você nem ligou
Para tanta proeza
Põe um preço tão alto
Na sua beleza
E então, como Churchill
Eu tentei outra vez
Você foi demais
Pra paciência do inglês
Aí, me curvei
Ante a força dos fatos
Lavei minhas mãos
Como Pôncio Pilatos
Áudio Paulo Vanzolini
Samba Abstrato
Samba Abstrato
Paulo Vanzolini
Calado eu luto
Sereno e resoluto
Mas de minuto em minuto
Sinto que a força se esvai
Eu me mantenho e sustento
Da fibra e do pensamento
Mas de momento em momento
A resistência descai
Respiro fundo
Pois de segundo em segundo,
Mais cresce o peso do mundo
Jesus Cristo sem o pai
Resisto
Porém não sei até quando
No fim acabo ajoelhando
Mas a coragem não cai
Mas ninguém pense
Que não estou muito consciente
De que fundamentalmente
Não existe diferença
Entre morrer pela crença
E ser igual a toda gente
É tudo um sonho
É tudo uma sombra, uma ideia
Autor, ator e plateia
Espero que o pano caia
Pra sair batendo palmas
Ou romper na maior vaia
Ou dizer, muito ao contrário,
Que espetáculo tão frouxo
Nem merece comentário
Áudio Paulo Vanzolini
domingo, 15 de maio de 2011
Cuitelinho
Cuitelinho
Tema recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó
Cheguei na bera do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na bera da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia ai
Ai quando eu vim de minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia ai
A tua saudade corta
Como o aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a otra faia
E os oio se enche d'água
Que até a vista se atrapaia ai
Áudio Nara Leão
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Paulo Vanzolini
segunda-feira, 21 de março de 2011
Alberto
Alberto
Paulo Vanzolini
Alberto
Foi morar na casa da noiva e não deu certo
Alberto era bom demais
Pra sogra fazia o que pouca gente faz
Tratava bem
Com tanto carinho que deu ciúme
Na senhora dum vizinho
Que tendo sua razão foi tirar sastifação
E armou um bode danado que o resultado
Uma viúva ali de perto
Pegou o revolve e se botou atrás de Alberto
E a dona do empório
Assistindo o mistifório
Sorria dizendo assim:
"Essas dona são maluca
Albertinho não faria isso pra mim"
Sua própria empregada
Deu uma risada de pena e disse "Coitada
Arberto só apreceia a cor morena bem queimada"
Já levou uma bofetada pra não ser tão abusada
A confusão se generalizava quando chegou a mulher de Alberto
E vinha brava dando bronquite
"Sou eu a mulher legiti
Casada no padre e no civil
Pela lei do Brasil e do Vaticano"
Já chegou rasgando o pano
Dando sopapo no olho
Puxando o criador de piolho
"Se eu não fosse uma senhora muito fina
Que nem na pinga num xinga
Eu mostrava essas mendiga
Esses pescoço de ganso
Esses couro mal curtido
Mulher de marido manso
Resto de sexta-feira com jejum e bestinência
Que não quisesse a insolência que se por com bom rapaz
Que só tem por seu defeito
Ter nas esquerda do peito
Coração grande demais"
Com essas palavras magoada
Chegou uma cana reforçada
E levou todas as mulherada
Tinha doze das casada
Quinze solteira
Quatorze largada dos marido
O que mais me encheu de dó
Foi lotarem uma perua do juizado de meno
Foram todas pro distrito
Não se deram por achada continuaram seu cunflito
Delegado ficou aflito
Deu um grito formidave
"Desce essas macaca tranca a porta e perde a chave"
E me tragam esse Alberto
Quero falar com ele
Quero conhecer de perto esse grande artista
Dez Sherlock se atiraram nessa pista
Com cachorros policiais
Metralhadoras
Bombas de gás
Reportagem de jornais, emissoras de rádio e de tv
Depois de muito se mexer encontraram Alberto
Lá em Vila Esperança
No jardim brincando com as criança
Sua senhora na cozinha
Fazendo mamadeira da mais novinha
Uma cena comovente
Mas levaram todos em frente
E quem quiser saber mais
Amanhã procure nos jornais
Porque Alberto
Foi morar na casa da noiva e não deu certo
Alberto era bom demais
Áudio Paulo Vanzolini
terça-feira, 15 de março de 2011
Capoeira do Arnaldo
Capoeira do Arnaldo
Paulo Vanzolini
Quando eu vim da minha terra
Passei na enchente nadando
Passei frio, passei fome
Passei dez dias chorando
Por saber que de tua vida
Pra sempre estava passando
Nos passos desse calvário
Tinha ninguém me ajudando
Tava como um passarinho
Perdido fora do bando
Vamo-nos embora, ê ê
Vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora, ê ê
Presse mundo afora, camará
Quando eu vim da minha terra
Veja o que eu deixei pra trás
Cinco noivas sem marido
Sete crianças sem pai
Doze santos sem milagre
Quinze suspiros sem ai
Trinta maridos contentes
Me perguntando "já vai?"
E o padre dizendo às beatas
"Milagre custa, mas sai"
Vamo-nos embora, ê ê...
Quando eu vim da minha terra
Num sabia o que é sobrosso
Sabença de burro velho
Coragem de tigre moço
Oração de fechar corpo
Pendurada no pescoço
Rifle do papo-amarelo
Peixeira cabo de osso
Medalha de Padre Ciço
E rosário de caroço
Pra me alisar pelo fino
E arrepiar pelo grosso
Que eu saí da minha terra
Sem cisma
Susto ou sobrosso
Vamo-nos embora, ê ê...
Quando eu vim da minha terra
Vim fazendo tropelia
No lugar onde eu passava
Estrada ficava vazia
Quem vinha vindo, voltava
Quem ia indo, não ia
Quem tinha negócio urgente
Deixava pro outro dia
Padre largava da missa
Onça largava da cria
E os pais de moça donzela
Mudava de freguesia
Mas tinha que fazer força
Porque as moça num queria
Vamo-nos embora, ê ê...
Eu saí da minha terra
Por ter sina viageira
Cum dois meses de viagem
Eu vivi uma vida inteira
Saí bravo, cheguei manso
E macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra
Me deu lição verdadeira
Coragem num tá no grito
E nem riqueza na algibeira
E os pecado de domingo, morena
Quem paga é segunda-feira
Vamo-nos embora, ê ê...
Áudio Bando de Macambira
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Mente
Mente
Eduardo Gudin e Paulo Vanzolini
Mente, ainda é uma saída
É uma hipótese da vida
Mente, sai dizendo que me ama
Mente, espalha essa fama
Me chama de meu amor constantemente
No meio de toda gente e a sós
Entre nós dois, mente
Mente, pra dar um novo início
Ninguém liga a sacrifício
Quando ele é o único meio
Pois na mentira, meu amor
Crer eu não creio
Só pretendo
Que de tanto mentir
Repetir que me ama
Você mesma acabe crendo
Áudio Clara Nunes
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Tempo e Espaço
Tempo e Espaço
Paulo Vanzolini
Tempo e espaço eu confundo,
E a linha de mundo é uma reta fechada.
Périplo, cíclo, jornada de luz consumida
E reencontrada.
Não sei de quem visse o começo
E sequer reconheço
O que é meio o que é fim
Pra viver no teu tempo é que eu faço
Viagens no espaço,
De dentro de mim.
Das conjunções improváveis
De órbitas instáveis
É que eu me mantenho
E venho arrimado nuns versos,
Tropeçando universos,
Pra achar-te no fim
Deste tempo cansado de dentro de mim.
Áudio Paulo Vanzolini
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