domingo, 8 de maio de 2011

Tudo Que Você Podia Ser



Tudo Que Você Podia Ser
Lô Borges e Márcio Borges

Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser
Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo
E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada
Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada
Não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo o que você consegue ser ou nada

Áudio Milton Nascimento

Um Girassol da Cor de Seu Cabelo


Um Girassol da Cor de Seu Cabelo
Lô Borges e Márcio Borges

Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor do seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo

Se eu cantar não chore não
É só poesia
Eu só preciso ter você
Por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia
Como vai você?

Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer dançar comigo
Vento solar e estrelas do mar
Um girassol da cor de seu cabelo

Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?

O meu pensamento tem a cor de seu vestido
Ou um girassol que tem a cor de seu cabelo?

Áudio e vídeo Lô Borges



Vento de Maio



Vento de Maio
Telo Borges e Márcio Borges

Vento de raio
Rainha de maio
Estrela cadente

Chegou de repente
O fim da viagem
Agora já não dá mais
Pra voltar atrás

Rainha de maio
Valeu o teu pique
Apenas para chover
No meu pique-nique

Assim meu sapato
Coberto de barro
Apenas pra não parar
Nem voltar atrás

Rainha de maio
Valeu a viagem
Agora já não dá mais...

Nisso eu escuto no rádio do carro a nossa canção
(Vento solar e estrelas do mar)*
Sol girassol e meus olhos ardendo de tanto cigarro
E quase que eu me esqueci que o tempo não para nem vai esperar

Vento de maio
Rainha dos raios de sol
Vá no teu pique
Estrela cadente até nunca mais
Não te maltrates
Nem tentes voltar o que não tem mais vez

Nem lembro teu nome nem sei
Estrela qualquer lá no fundo do mar
Vento de maio rainha dos raios de sol

Rainha de maio...

*Trecho de Um Girassol da Cor de Seu Cabelo de Lô Borges e Márcio Borges com Lô Borges

Áudio Elis Regina

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Tiro de Misericórdia

 Ilustrações de Mello Menezes

Outro retrato pungente da infância na música popular é sem dúvida uma das obras-primas da dupla João Bosco e Aldir Blanc: Tiro de Misericórdia, lançada em álbum homônimo de João no ano de 1977. A capa e contracapa desse disco - surpreendentemente ainda inédito em CD - estão reproduzidas acima.

Tiro de Misericórdia
João Bosco e Aldir Blanc

O menino cresceu entra a ronda e a cana
Correndo nos beco que nem ratazana.
Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
Subindo em pedreira que nem lagartixa.
Borel, juramento, urubu, catacumba,
Nas roda de samba, no eró da macumba.
Matriz, querosene, salgueiro, turano,
Mangueira, são carlo, menino mandando,
Ídolo de poeira, marafo e farelo,
Um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
Imperador dos morro, reizinho nagô,
O corpo fechado por babalaôs.

Baixou oxolufã com as espadas de prata,
Com sua coroa de escuro e de vício.
Baixou caô-xangô com o machado de asa,
Com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
Com todos seus ferros, com lança e enxada.
E oxossi com seu arco e flecha e seus galos
E suas abelhas na beira da mata.
E oxum trouxe pedra e água da cachoeira
Em seu coração de espinhos dourados.
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
E um batalhão de mil afogados
Iansã trouxe as almas e os vendavais,
Adagas e ventos, trovões e punhais.
Oxum-maré largou suas cobras no chão.
Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
Lançando a doença pra seus inimigos.
E nanã-buruquê trouxe a chuva e a vassoura
Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.

Exus na capa da noite soltaram a gargalhada
E avisaram a cilada pros orixás.
Exus, orixás, menino, lutaram como puderam
Mas era muita matraca pra pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do pendura-saia,
Zambi menino lumumba tomba na raia
Mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
Arcanjos velhos, coveiros do carnaval.

– Irmãos , irmãs, irmãozinhos,
   por que me abandonaram?
   por que nos abandonamos
   em cada cruz?
– Irmãos , irmãs, irmãozinhos,
   nem tudo está consumado.
   a minha morte é só uma:
   ganga, lumumba, lorca, jesus...

Grampearam o menino do corpo fechado
E barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
E a misericórdia no último tiro.
Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
Depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
Num jogo cercado pelos sete lados.

Áudio e vídeo João Bosco



Menino

Criança Morta de Candido Portinari (1944)

Agora o retrato do menino é de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Lançada no disco Geraes de 1976, foi também gravada por Elis Regina em seu álbum duplo Saudade do Brasil, de 1980. 


Menino
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte
Talhada a ferro e fogo
Nas profundezas do corte
Que a bala riscou no peito
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora
Relógio no chão da praça
Batendo, avisando a hora
Que a raiva traçou
No incêndio repetido
O brilho do teu cabelo
Quem grita vive contigo

Áudio Milton Nascimento



Vídeo Elis Regina